Quando eu era adolescente

Quando eu era adolescente, meus cadernos escolares eram infestados de desenhos de caveiras, zumbis e cemitérios, além de letras de músicas raivosas de punk e heavy metal.

Além disso, eu era absolutamente fissurado por jogos de computador ultraviolentos, especialmente os de tiro em primeira pessoa.

Minhas camisetas eram todas escuras e com imagens de monstros de bandas de metal.

Assistia filmes trash violentos com gente saindo das sepulturas com a maior frequência possível, mas meu subgênero favorito de horror eram os “slasher movies” (aqueles filmes nos quais um assassino oculto passa uma hora e meia se esgueirando nas sombras até matar o elenco inteiro com requintes de crueldade e termina levando uma machadada na cabeça ou algo do tipo).

Meus autores favoritos eram todos mestres do horror sobrenatural, do mistério ou do suspense: Stephen King, H.P. Lovecrat, Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle.

Era frequentemente mal humorado, antissocial, invisível para as meninas e gostava de passar os “recreios” da escola na biblioteca – ou sozinho, ou com alguns amigos jogando RPGs de mesa como Dungeons & Dragons ou card games como Magic the Gathering.

Quase todas as minhas atividades favoritas envolviam ficar sozinho vendo um filme, lendo um livro, ouvindo música ou jogando alguma coisa sanguinolenta no computador.

É graças a tudo isso, e justamente por causa de tudo isso, que eu pude atravessar a fase naturalmente infernal da adolescência preservando com sucesso a minha sanidade mental, para posteriormente tornar-me um adulto tranquilo e bem resolvido, que não baba de ódio quando contrariado e que tem horror à violência real contra animais e seres humanos.

Se dependesse dos “laudos técnicos” dos “psicólogos” de redes sociais dos dias contemporâneos, certamente eu teria sido rotulado como um psicopata e assassino em potencial quando era adolescente.

O nome disso é ignorância. Me desculpem, mas é.

Pode até ser ignorância ingênua e/ou de boa-fé. Mas continua sendo ignorância.

A música, a arte, a literatura, o cinema e os videogames não transformam pessoas em monstros violentos. Pelo contrário: estas coisas frequentemente salvam corações e mentes. Elas atuam como um dique de contenção dos instintos da animalidade humana e nos permitem dar sentido e ordem para os impulsos sombrios e bestiais das paixões do baixo ventre.

Apelamos para a representação artística para compreender sem o ônus de ter que vivenciar na própria pele. Apelamos para a linguagem poética para podermos ser racionais sem enlouquecer.

Se a violência no mundo é enorme mesmo com essas coisas, imagine sem elas.

É que falar de hábitos e costumes jovens, filmes de terror, joguinhos eletrônicos, quadrinhos e bandas de rock é bem mais fácil do que falar sobre os problemas reais que transformam jovens em monstros: desestrutura familiar; ausência de perspectivas de futuro; acesso facilitado a armas de fogo; bullying; selvageria do ambiente escolar; medo do fracasso; medo da rejeição; medo do abandono e da solidão; fascinação com discursos de ódio que canalizam as frustrações próprias da adolescência; maus exemplos de abuso e de violência por parte de adultos; imaturidade intelectual de uma sociedade adulta que simplesmente não tem coragem de falar abertamente sobre o “tabu” do suicídio na adolescência; etc.

Demonizar amenidades não passa de uma estratégia mental para “discutir assuntos sérios” ao mesmo tempo em que se coloca para escanteio precisamente aqueles temas sérios que se pretendia encarar.

Contornar os horrores reais que geram desgraças pode até gerar conforto psicológico para o observador adulto perplexo, mas não faz com que as desgraças e horrores reais do mundo sejam reduzidos de fato.

 

Henrique Abel

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